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Minas Gerais - Brasil




Cachoeira da Fumaça - Cartão postal de Carrancas


PREFÁCIO

Viagem à alma de Minas


Meus primeiros contatos com o talento e a competência profissional de Marta Amato aconteceram há cerca de três anos, quando ela trabalhou como pesquisadora da tese de doutoramento da historiadora Marina Maluf - e que acabaria resultando não só na tese acadêmica, mas no belo livro “Ruídos da Memória”(Editora Siciliano, 1995). Com faro de repórter e veia de garimpeira, Marta varria cartórios e acervos familiares perdidos nos grotões do interior de São Paulo e de Minas Gerais para retornar à capital, quase sempre, com o embornal repleto de ouro.

Passados alguns anos, chegou a minha vez de socorrer-me de sua experiência profissional. Bastou dizer-lhe que eu pretendia reconstituir, no meu próximo livro, a chacina da nação Caingangue ocorrida na região de Bauru no começo do século, para que Marta saísse em campo. Ela sumiu pelo ramal da Noroeste para só reaparecer em São Paulo, semanas depois, com o produto da expedição - a rica documentação que iria servir de sinalizador da minha pesquisa.

Agora Marta Amato passou para o lado de cá do balcão. Depois de ser personagem freqüente nas listas de agradecimentos de vários autores, ela salta para a capa do livro, como autora deste interessante “A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas e sua história”. Com minúcia e precisão, Marta Amato não se limita a realizar um frio levantamento genealógico dos homens e mulheres que construíram a cidadezinha do Sul de Minas. Ao ressuscitar os personagens do folclore local, as lendas, os pioneiros da indústria de queijos, as assombrações e os anônimos heróis carranquenses, ela reconstrói um pedaço de um Brasil do qual nós, bichos urbanos, já tínhamos nos esquecidos.

Na introdução deste livro, Marta Amato nos convida a embarcar com ela no trem da história, “cruzando as serras, rios e cascatas de Minas Gerais”. O leitor que leve uma boa matula, que a viagem é longa. E prepare-se para uma comovente e romântica viagem à alma dos mineiros.

Fernando Morais

INTRODUÇÃO

Povo sem memória é povo sem história”. Partindo desse princípio e sendo genealogista, sempre me preocupei em redescobrir a história e os costumes dos lugares de onde saíram meus antepassados. Assim, Carrancas foi uma das cidades que mais pesquisei, levantando seus primeiros habitantes, sua história, sua colonização. Em minhas pesquisas encontrei antepassados que viveram nessa cidade nos primórdios de sua fundação.

Devemos a Fernão Dias Paes Leme, nomeado Governador das Esmeraldas, o início do povoamento dos Campos dos Cataguases, futura Capitania de Minas Gerais.

Em 1673, corajosamente embora já velho, atendendo ao apelo de seu rei, juntou seus índios agregados e com seus dois filhos, um legítimo, Garcia Rodrigues Pais, e um natural, José Dias, com seu genro Manuel Borba Gato e alguns amigos que acreditaram nele, partiu de São Paulo chefiando a maior bandeira paulista, entrando no sertão em busca da Lagoa Encantada onde estariam as tão sonhadas esmeraldas. Depois de muito sofrimento, na volta para casa, morreu de malárias às margens do Rio das Velhas (Guaicuí), achando que tinha conseguido realizar seu sonho. Mas só descobriu turmalinas, pedras verdes sem muito valor. Nesta louca aventura, o Governador das Esmeraldas foi plantando roças e deixando atrás de si “pousos”, para que outros bandeirantes pudessem sobreviver na impiedosa selva pontilhada de perigos. Alguns desses pousos atraíram pessoas que comerciavam fornecendo mantimentos e munição para os que demandavam às minas. Nesses agrupamentos construíram-se capelas e assim, aos poucos, foram se formando os povoados.

Localizada no trajeto dos bandeirantes, que saíam de São Paulo pelo Caminho Velho em busca do ouro nas Minas Gerais, Carrancas foi uma das primeiras povoações da Comarca do Rio das Mortes.

Embora fosse uma região aurífera, único interesse dos que aspiravam a riqueza fácil, seus primeiros habitantes eram agricultores e criadores, o que indica não ter sido encontrado ouro em quantidade economicamente rentável onde hoje se localiza a cidade e nos arredores, apesar de nos municípios vizinhos terem existido grandes lavras, de onde comprovadamente foi extraído muito metal precioso pelos mineradores do século XVIII e princípios do XIX.

Por que “A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas e sua história”?

Freguesia era a área de jurisdição da Igreja, hoje conhecida como paróquia, e assim os povoados eram chamados antes de serem elevados a vila. Nada mais apropriado para o título desse livro, pois esse foi um dos primeiros nomes de Carrancas. A história de seu povoamento é deveras peculiar, seja pela época, seja pelo modo como foi feita.

Sendo uma freguesia tão antiga, Carrancas tem muita história e estória para contar e foi berço de inúmeros cidadãos ilustres.

Infelizmente não se consegue saber dos fatos pitorescos que aconteceram no princípio da povoação, pois não se tinha o hábito de escrever os acontecimentos do dia-a-dia.

Ficou para nós o sabor do desconhecido, o “talvez...”.

Trabalhando com documentação primária trarei, aos leitores um pouco da verdade, que só o registro dos livros pode nos dar; e, para que a leitura não fique cansativa, conto os “causos” e lendas que cercam o lugarejo.

Nesse trabalho, falo de Carrancas, vista, não só com olhos de pesquisadora, mas também com o coração e com a alma, pois é um lugar onde nos sentimos mais perto de Deus e onde vemos Sua mão na natureza exuberante de suas verdes serras, nas suas 52 quedas d’águas e nas várias piscinas e escorregadouros naturais.

Encantam-nos a simplicidade de seu povo bem mineiro, a amizade e o afeto que transmitem aos que lá chegam em busca de um pouco de paz.

Aliado a isso, Carrancas é talvez um dos raros recantos totalmente preservados na natureza, um verdadeiro paraíso ecológico.

Convido os leitores para que embarquem comigo no trem da história, cruzando as serras, rios e cascatas de Minas Gerais para encontrarmos no passado as pessoas que interagiram nos acontecimentos que marcaram o perfil desta nação, com seu trabalho, coragem e amor à terra natal.

Quero, ainda, homenagear tanto meus antepassados carranquenses como os antepassados de toda a população e dos que têm raízes, mesmo remotas, neste simpático lugar, resgatando seus feitos, contando um pouco de suas vidas, tentando mantê-los vivos na memória de seus descendentes.



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