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Minas Gerais - Brasil


O Povoamento

Trecho do 2ocapítulo do Livro: "O Povoamento do Planalto da Pedra Branca / Caldas e região".

Dr. Reynaldo de Oliveira Pimenta.

Foi no "ciclo pastoril" do desenvolvimento econômico da Capitania de Minas Gerais. Desbravado o Planalto da Pedra Branca, começou o Povoamento.


"O Poente, pobre de ouro,
era rico de paz.

Cansados de buscar esse thesouro,
a miragem falaz
que os illudia nas barrancas
dos ribeirões de Villa Rica e de Carrancas,
pobres e ricos, grandes e pequenos,
egressos do Tijuco e Pitanguy,
buscavam menos
o ouro verde dos campos do Capivary
que o direito de pensar e de ser livre".

Inicia-se o Povoamento.


E foram as pastagens colorindo
dum verde claro o pinheiral infindo,
como remendos costurados
à colcha escura dos serrados.

Novos casais e novas greis,
tendo apenas por leis
o temor de Deus e a lealdade humana,
foram crescendo dadivosos,
como cresce na terra lhana
uma sebe de rosas.

À medida que a economia regional, que saía da era das minerações, se integrava nas atividades pastorís que caracterizavam a nova fase, acelerou-se o movimento migratório das populações do leste.

Abandonando os garimpos decadentes, procuravam o ouro verde das pastagens, o interesse do momento. Buscaram primeiro os pastos naturais do rio Machado e do Capivari, depois a campanha nativa das Antas.

A exaustão das aluviões auríferas transformara a sociedade de garimpeira em criadora. A preocupação dominante é agora a posse dos campos naturais, porque o pastoreio sucedeu à mineração e a unidade das atuais atividades econômicas não é mais o garimpo de onde vem o ouro, mas a "fazenda de criar" que dá o boi.

A busca do capim nessa fase transicional valoriza as áreas ricas em pastagens nativas: os "campos das Caldas", como já agora a região é chamada.

O revestimento pobre dessas terras estéreis facilita a instalação do núcleo pastoril que, economicamente, substitui a grupiara.

A região, favorecida pela natureza de seu solo árido e pela cobertura escassa da terra magra, onde predominavam os pastos naturais, atraiu os desiludidos que, das barrancas dos "ribeirões do ouro", vieram para os "campos de cima da Serra", onde encontravam feita a pastagem buscada.

O Povoamento do Planalto da Pedra Branca se fez na contingência de três fatores interdependentes: o geográfico (ou melhor geológico) que dava à região característica própria, diferente das demais que a cercavam (Cabo Verde, Santa Ana, Campanha, Ouro Fino) que era a zona do ouro; o político, contemporâneo dos primeiros pruridos separatistas e conseqüente opressão reinol que nos meados do século 18 visava sobretudo os mineradores (o insatisfeito busca na montanha, refúgio dos rebelados, a liberdade que lhe roubam na planície); o econômico, o elemento dominante: “o ciclo pastoril” sucedera ao “ciclo do ouro”; o garimpo, unidade da economia no período anterior, substituíra-o a “fazenda de criar”, interesse comercial do momento. As terras do Planalto impróprias à mineração ofereciam, no entanto, feitos, os campos exigidos pela atividade pastoril, nascente.

Como até os meados do século 18, a “única cousa que dava valor aos territórios novos, dando motivo à sua ocupação e povoamento, eram os descobertos de ouro”, a região onde mais tarde se vai localizar a Freguesia de Nossa Senhora do Patrocínio do Rio Verde das Caldas só foi ocupada e povoada quando, finda a era das minerações, se iniciou o “ciclo pastoril”.

Para ela acorreram justamente os garimpeiros frustados nas fainas improdutivas das faisqueiras do Descoberto paulista do rio Pardo (Caconde) e os mineradores desiludidos das catas geralistas de Santana, Cabo Verde, São Gonçalo e Ouro Fino.

Iniciado no Capivari, avançou rapidamente para o norte e para oeste, respeitando a princípio a “tranqueira” erguida no rio Verde (1778) para depois, ultrapassando-a, anexar à Capitania de Minas os Campos das Antas, até então sob jurisdição paulista.

Foi nessa conjuntura que, atuando no mesmo sentido, a mesma força, que vinha empurrando a divisa e provocando o recuo lindeiro, trouxe as massas rumo a oeste, escalando o Planalto. Se no “ciclo do ouro” era a procura das novas minas que impelia os mineiros a atravessar o rio Verde para tomar Campanha, expulsando Bartolomeu Bueno (1743); a transpor o Sapucai para se apossar de Santana, escorraçando Martins Lustosa (1749); agora, no “ciclo pastoril” a corrida pela posse dos “campos do alto” fez com que o mesmo fenômeno se repita e a “Campanha das Caldas”, desbravada e povoada por paulistas, torna-se a meta da onda migratória que se desloca do nascente.

Agindo na mesma direção, o impulso migratório, movido por fatores econômicos, veio recalcando para o poente a fronteira das Capitanias e impelindo a massa que escalou o Planalto e vadeou o Capivari e o rio Pardo.

O primeiro morador da região já desbravada, talvez mais precisamente o primeiro posseiro que, sem nela morar, teve aí propriedade, foi Veríssimo João de Carvalho com “posses” na Gineta, entre o rio Pardo e o Capivari: “huma legoa de terras”... “nas cabesseiras do rio Pardo”.

É esse ainda um período de transição entre a fase das minerações, agonizante, e o ciclo pastoril, nascente: Veríssimo João, sem abandonar as catas do ribeirão de Assunção no Cabo Verde e do ribeirão de São Paulo no Ouro Fino, tinha fazenda de criar na Gineta.

De maneira semelhante se comporta Inácio Preto, garimpeiro, que se “internou nos Campos das Caldas” e aí se “estabeleceu com um retiro”... “onde está situada a cidade de Poços de Caldas”. E “criava gado”.

O povoamento da parte oriental do Planalto foi feito por mineiros nos meados do século 18: Veríssimo João na “Gineta”(1762); Lucas Borges no “Pouso Alegre”(1772); Antônio Gomes nos “Bugres”(1776); Antônio Gonçalves no “Ribeirão Fundo”(1777); Manuel Marques no “Bom Retiro”(1785); no “São Bento” Manuel Joaquim de Oliveira, o velho (1791). Todos no Capivari e no rio Pardo.

O povoamento da parte ocidental, correspondendo ao maciço de Poços de Caldas, foi feito primeiro por paulistas: Manuel Inácio Preto, Antônio Bueno da Silveira, Inácio Preto de Morais (1778) e “com licença dos registros paulistas, o Capitão Francisco Gomes de Castilho, José de Faria Alvarenga, Manuel Joaquim de Oliveira d’Horta, de Cabo Verde (1787). Depois ultrapassada a “Tranqueira de Veríssimo João” por mineiros: José Pires de Ávila que morava na “Ponte Alta”, José Borges de Carvalho que morava nas “Pitangueiras”, João Moreira que morava nas “Laranjeiras”. Em 1788 veio José Dutra; em 1792 “como militar” o Capitão João de Freitas de Azevedo Coutinho; e, nos últimos anos do século 18, “acompanhado de outros parentes”, o Pe. Manuel Gonçalves para o “Monte Alegre”, Felipe Mendes para o “Cipó”, para a “Lagoa Dourada” João Batista Ribeiro. Todos nos “Campos das Caldas”. Egressos de Baependi (1792) onde tinham fazenda os três irmãos, filhos da ilhoa Maria Teresa, Manuel Inácio Franco no “Tripuí”, José Rabelo de Carvalho no “Jardim”(rio Machado) e Antônio Rabelo de Carvalho no “Chapadão”.

A posse mineira ocorreu no último quartel do século 18, tanto mais intensamente quanto mais se aproximava o fim da centúria, movimento coordenado com a retirada progressiva dos paulistas dos campos das Antas, o que favoreceu o deslocamento da fronteira rumo a oeste, integrando na Capitania de Minas o Planalto da Pedra Branca, porque, estendendo-se até a “Serra do Mogy Guassú”, esta passou a ser a nova fronteira.

O povoamento do Jaguari tanto na região da futura Ibitiura, como na de Andradas e na de São João da Boa Vista se fez posteriormente. A primeira em 1802, “era ainda desabitada”. A segunda é ainda em 1807 “Logar”... “remoto sem habitantes”. A última, o “Jaguary de São João” era “aria prohebida”...“respeitada pelos sertanejos”, até o segundo quartel do século.

Acompanhando o crescente recurvo da cordilheira que separa o vale do Jaguari das bacias do rio Verde e das Antas, desde a Pedra Branca ao Quartel, alinharam-se, afinal, tendo como limite o divisor das águas (e depois descendo até o rio) as fazendas do Bom Retiro, Pitangueiras, Lagoa Dourada, Cipó, Chapadão e Monte Alegre, todas apoiando-se na serra curvilínea e avançando sobre os campos adjacentes.

Em última análise, a ocupação paulista limitou-se ao vale do ribeirão das Antas e conteve-a a “tranqueira” do rio Verde das Caldas, pois o povoamento da área ocidental (o “Maciço de Poços de Caldas") foi feito por paulistas vindos do oeste, ao passo que o povoamento da parte oriental do Planalto (rio Machadinho, Machado, Capivari, rio Pardo) se fez por mineiros vindos do leste.



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